Daniel Torttino em 2026,
Paraty - RJ
A infância foi vivida entre o interior, a natureza e a convivência constante com avós e bisavós. Um cotidiano simples, feito do quintal, dos trabalhos do dia a dia, das conversas demoradas e da liberdade de explorar o mundo ao meu redor.
Foi ali que aprendi a prestar atenção. Aos gestos pequenos, às histórias, às pessoas e àquilo que quase sempre passa despercebido. Muito do que sou começou nessa observação silenciosa do mundo.
Daniel Torttino e sua avó, Erli Mari.
Paraty, 2026.
Daniel, aos 4 anos, em contato com a pintura.
A arte apareceu cedo e de maneira natural. Desenhar, pintar e, mais tarde, fazer música nunca partiram de um plano. Eram maneiras de experimentar aquilo que despertava minha curiosidade e dar forma ao que, muitas vezes, eu ainda não sabia explicar. Aprendi a confiar na intuição — a seguir um interesse mesmo sem saber exatamente onde ele poderia me levar.
Daniel, em 2024 no Monte Pinciano em Roma, Itália.
Com o tempo, compreendi que aquilo que vivemos não permanece igual dentro de nós. Alegrias, perdas, encontros e ausências assumem outros significados à medida que também mudamos. Passei a me interessar menos pelo acontecimento em si e mais por aquilo que poderia fazer com ele. Foi assim que comecei a compreender a permanência não como um estado imóvel, mas como movimento. Permanecer exige transformar-se. Talvez porque a vida, para continuar, precise estar sempre realizando alguma coisa em nós.
Ao longo dos anos, algumas dessas experiências se tornaram princípios. Não um manual para evitar as dificuldades, mas uma maneira de atravessá-las. Como a água, que não enfrenta a pedra para provar sua força: segue, encontra outros caminhos e ainda assim preserva sua direção. Talvez permanecer seja justamente isso — não resistir à mudança, mas encontrar nela uma maneira de continuar.
Mas nem tudo aquilo que nos forma começa em nós. Carregamos gestos, histórias e valores recebidos de quem veio antes. Muito do que sou foi construído pelas mãos de pessoas que talvez nunca tenham imaginado o alcance daquilo que me ensinaram. Entre o que vivi, o que aprendi e o que recebi, alguma coisa começava a tomar forma.
Estudo inicial de design e protótipo em prata do detalhe lateral, desenvolvido manualmente
Quando a Torttino começou a tomar forma, algumas escolhas pareciam novas. Outras, descobri depois, vinham de muito antes. O cravo foi uma delas. Era a flor preferida da minha bisavó e surgiu quase espontaneamente como símbolo. Só mais tarde, ao compreender melhor seus significados, percebi nele valores que já atravessavam a minha própria história.
Aquilo que nasceu da intuição encontrou, com o tempo, suas razões para permanecer.
Gosto de pensar na Torttino como uma casa.
Uma casa construída com aquilo que recebi, com aquilo que aprendi e com as diferentes formas de criação que encontrei pelo caminho. Um espaço onde elas possam existir, conviver e continuar se transformando. Não desejo determinar desde agora tudo aquilo que a Torttino poderá ser. Há coisas que só o tempo pode revelar — e talvez permanecer seja também permitir que o tempo deixe suas marcas. Há, porém, algo que desejo conservar: o apreço por aquilo que é feito com verdade e esmero, onde o cuidado das mãos e a intenção de quem cria permanecem presentes.
Daniel Torttino em 2026, Paraty - RJ.
Antes mesmo de a Torttino existir, algumas palavras já me acompanhavam. Com o tempo, passaram também a fazer parte dela. Sempre acreditei que realizar é uma maneira de estar vivo. A realização está para a alma assim como a respiração está para o corpo. Talvez por isso eu não compreenda a permanência como um desejo de conservar as coisas intactas, mas como a disposição de continuar dando forma àquilo que ainda pode existir.
Quanto ao que o futuro reserva, não sei e nem desejo saber. Mas, como diria uma cantora que admiro muito, Ornella Vanoni: “Voglio vedere.”
- Quero ver.
Nada pode me limitar a não ser eu mesmo, o responsável por mim.
Sou grato por tudo inclusive às minhas dores, sem elas não haveria cura.
Não aceito pouco de mim, pois sei do meu potencial.
Quero sempre me conhecer e ser melhor, não comparado a outros, mas a mim mesmo.
Quero amar no agir, mas jamais ficar só no falar.
Eu posso mudar a realidade na mesma proporção que eu acreditar.
Eu tenho medo, mas ainda assim caminho.
Eu vivo no escuro, mas ainda assim ilumino.
Eu sou essência, sou harmonia e sou vida.
Eu sou uma expressão do Espírito ilimitado.
Posso ser filho do erro, mas sou pai da transformação.
Eu sou o próprio Divino em Movimento.
Sou A Revolução.
Daniel Torttino